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segunda-feira, março 26, 2007

Eu nem sei o que pensar deste país

Sim, a letra minuscula em país é prepositada! Só um portugal muito pequeno elege um Fascista como o melhor português de todos os tempos!

"Era o Verão de 1933, eu tinha dez anos, e de todas as noticias que o Século publicou naquelas folhas (...) só uma recordação vim a guardar: a fotografia, com a respectiva legenda explicativa, que mostrava o chanceler austriaco Dollfuss a assistir a um desfile de tropas no seu país. Era o Verão de 1933, há seis meses que Hitler tomou o poder na Alemanha (...)
Foi por esta época (talvéz ainda em 33, talvez já em 34, se as datas nao se me confundem) que, passando um dia na Rua da Graça, meu acostumado caminho entre a Penha de França, onde eu morava, e São Vicente, onde era entao o Liceu Gil Vicente, vi, dependurado à porta de uma tabacaria, mesmo defronte do antigo Royal Cine, um jornal que apresentava na primeira página o desenho perfeitissimo de uma mão em posição de preparar-se para agarrar algo. Por baixo, lia-se o seguinte título: «Uma mão de ferro calçada com uma luva de veludo». O Jornal era o semanário humorístico Sempre Fixe, o desenhador, Francisco Valença, a mao figurava ser a de Salazar.
Estas duas imagens - a de um Dollfuss que sorria vendo passar as tropas, quem sabe se já condenado à morte por Hitler, a da mão de ferro de Salazar escondida por debaixo da macieza de um veludo hipócrita - nunca me deixaram ao longo da vida. Não me perguntem porquê. Muitas vezes esquecemos o que gostariamos de poder recordar, outras vezes, recorrentes, obsessivas, reagindo ao minimo estimulo, vêm-nos do passado imagens, palavras soltas, fulgurância, iluminaçoes, e nao há explicação para elas, não as convocámos, mas elas aí estão. E são estas que me informam que já nesse tempo, para mim, mais por intuição, obviamente, que por suficiente conhecimento dos factos, Hitler, Mussolini e Salazar eram colheres do mesmo pau, primos da mesma familia, iguais na mão de ferro, só diferentes na espessura do veludo e no modo de apertar."

in, "As Pequenas Memórias" de José Saramago, página 140, 141 e 142

Acho que depois disto pouco mais há para dizer!
Portugueses, Abram os olhos antes que seja tarde de mais!