domingo, outubro 07, 2007

Sem titúlo algum

Sentada na minha cama, são 10h28 e como luz tenho apenas a persiana corrida com pequenas frinchas. Tenho o portátil nas pernas e leio uma entrevista na revista Visão On-line. António Lobo Antunes fala do seu novo livro O Meu Nome É Legião, que "decorre num bairro periférico de Lisboa e tem como protagonistas um grupo de miúdos, descendentes de africanos".

E numa parte ainda inicial da entrevista, deparo-me com palavras do autor que me tocam de uma forma especial: "O livro refere-se a um bairro em concreto, embora eu nunca lá tenha estado. Sempre me impressionou o facto de aqueles miúdos não terem raízes de espécie alguma. Não são portugueses, não são africanos, não são nada. Brincam com balas em vez de brincarem com bolas. E no entanto há neles uma sede de ternura, um desejo de amor absolutamente inextinguível. A morte e a vida não têm, para eles, qualquer significado ou, pelo menos, têm um significado muito diferente do que para nós. Na minha ideia, O Meu Nome É Legião era por isso um livro de amor. De amor por uma geração, por uma classe social sozinha e abandonada, por um grupo de pessoas desesperadamente à procura de uma razão de existir."

E tocaram-me porquê? Porque finalmente há alguém que consegue transpor para palavras aquilo que eu sempre senti em relação aos miúdos de bairros. A hipocrisia das pessoas que se dizem correctas ao afirmarem que o "País está mal de criminalidade por culpa desses pretos", é Tao nojenta, tão ... nem consigo classificar. Nunca pararam para pensar que não deve haver nada pior do que viver sem se saber o que se é!? Nunca morderam a língua e tentaram imaginar o que será conviver com pessoas que têm escrito no rosto "Desconfiança, Medo, Racismo..."!?

António Lobo Antunes ainda diz mais... "Estão de tal maneira abandonados que matar pessoas é a única maneira que têm de pedir colo. Não sei, porém, o que se passa na realidade, uma palavra idiota porque a realidade é uma coisa que não existe. Todas aquelas pessoas têm, para mim, uma densidade muito profunda."

E Continua... "Aquilo não é sequer um subúrbio. Para mim, o subúrbio é Benfica ou o Cacém. Aquilo é muito pior do que isso. Aquilo é o inferno. Aquelas pessoas vivem num inferno onde eu nunca entrei."

E é a mais pura verdade. Quem somos nós, gente de bem, com um tecto não rotulado de Bairro Social, com um emprego fixo, com uma nacionalidade assente, com uma vida dentro das ditas normas da sociedade, respeitosos da moral e dos bons costumes, para falar dessas pessoas no tom com que falamos?
Ninguém!

Experimentem viver como eles vivem, para depois sofrer o que eles sofrem, ver o que eles vêem, ouvir o que eles ouvem, sentir o que sentem.

Não sei se fui clara, não sei se me compreendem... Só não quero que pensem que tenho pena desses miúdos. Porque não tenho pena, sinto admiração porque lutam da maneira que podem por uma vida melhor. Pena tenho dos que têm tudo para acabar com esta forma de vida miserável e desumana, mas não têm horizontes capazes de o fazer. O comodismo é bastante mais simpático, e os bairros sociais são mais fáceis de construir do que construir uma sociedade do século XXI, ou seja, uma sociedade humana.


São 11h10, a minha mãe me subiu mais a persiana enquanto escrevia este texto.